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Por que é tão difícil para as mulheres parar, descansar e dizer não?

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A cobrança para dar conta de tudo pode transformar limites, pausas e momentos de cuidado consigo mesmas em motivo de culpa

A rotina de muitas mulheres é marcada por uma sucessão de responsabilidades que nem sempre aparecem na agenda. Além do trabalho remunerado, há o planejamento da casa, a organização da vida dos filhos, o cuidado com familiares, a manutenção das relações e a preocupação constante com aquilo que pode dar errado. Mesmo quando as tarefas são divididas, muitas vezes cabe a elas lembrar, antecipar e coordenar o que precisa ser feito.

Essa sobreposição de funções ajuda a explicar por que a saúde mental feminina merece ser analisada para além da ideia de que basta descansar ou encontrar alguns momentos de lazer. Em 2024, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social. As mulheres representaram mais de 60% desse total.

O cenário também aparece em levantamentos sobre ansiedade e depressão. De acordo com o relatório Esgotadas, da ONG Think Olga, 45% das mulheres brasileiras têm diagnóstico de ansiedade ou depressão, enquanto seis em cada dez relatam conviver com a ansiedade no dia a dia.

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Para a especialista em liderança e comportamento feminino Danieli Wegermann, o adoecimento está relacionado a uma combinação de fatores que ultrapassa o excesso de tarefas. “Mulheres não adoecem por fragilidade; adoecem porque operam em um ecossistema moldado para gastar todos os recursos na vida alheia, deixando o extrato pessoal zerado”, afirma.

Quando cuidar de todos significa esquecer de si

Parte dessa dinâmica está ligada à chamada carga mental, que envolve não apenas executar atividades, mas pensar previamente no que precisa ser feito, acompanhar prazos, lembrar compromissos e solucionar problemas antes que eles apareçam. É um trabalho contínuo e, muitas vezes, pouco reconhecido.

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A psicanalista Cintia Castro chama atenção justamente para essa dimensão do problema. Para ela, o esgotamento não pode ser explicado somente pela quantidade de afazeres.

“Muitas mulheres não chegam ao esgotamento apenas porque têm muito para fazer, mas porque foram ensinadas a acreditar que precisam dar conta de tudo. Quando cuidar de todos passa a significar abrir mão de si mesma, o sofrimento deixa de ser apenas cansaço e começa a revelar um conflito muito mais profundo”, explica.

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A culpa também pode reforçar esse ciclo. Descansar, recusar uma demanda ou estabelecer limites pode ser acompanhado pela sensação de que a mulher está deixando de cumprir uma obrigação com alguém próximo.

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“Existe também uma culpa muito profunda quando a mulher tenta descansar, dizer não ou colocar seus próprios limites. Muitas aprenderam a associar o próprio valor à capacidade de cuidar, produzir e sustentar emocionalmente os outros. Por isso, até o descanso pode ser vivido como egoísmo. É preciso compreender que colocar limites não significa deixar de amar ou cuidar. Significa reconhecer que ela também precisa existir nessa equação”, diz Cintia.

Nesse contexto, preservar a saúde mental não significa apenas encontrar maneiras de suportar uma rotina excessiva. Também envolve questionar por que determinadas responsabilidades recaem de forma tão desigual e quais mudanças são possíveis dentro das relações, da família e do ambiente profissional.

“É preciso criar espaço para que ela possa se escutar, reconhecer seus limites e compreender que não precisa ocupar o lugar de quem sustenta tudo o tempo inteiro. Isso chega a ser cruel. Quando uma mulher passa anos funcionando no limite, a pergunta não deveria ser apenas ‘o que há de errado com ela?’, mas também ‘o que estamos exigindo dela?’”, questiona a psicanalista.

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O que pode ajudar no dia a dia

Embora mudanças estruturais sejam importantes, existem estratégias que podem auxiliar no manejo de momentos de maior tensão. Uma delas é colocar no papel aquilo que ainda não consegue ser elaborado verbalmente.

O psiquiatra Thiago Zimermann Dias considera a escrita uma possibilidade de organizar experiências difíceis. “O papel pode suportar aquilo que, às vezes, a pessoa ainda não consegue dizer em voz alta. Esse talvez seja um dos grandes valores da escrita”, avalia.

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Ele ressalta, porém, que não existe obrigação de falar sobre uma experiência dolorosa antes de estar preparado. “Ninguém precisa contar uma experiência difícil antes de estar preparado. Existe um tempo para o silêncio. Mas existe também um momento em que falar deixa de ser apenas contar uma história e passa a ser uma forma de não precisar carregá-la sozinho”, pondera.

A escrita pode ser utilizada como uma forma de expressão, mas não substitui acompanhamento profissional quando existe sofrimento persistente. O mesmo vale para técnicas de respiração, mindfulness e outras estratégias de regulação emocional. Elas podem ajudar a reduzir a ativação do organismo em situações de estresse, mas não tratam isoladamente quadros como depressão e transtornos de ansiedade.

Outra possibilidade é observar de maneira mais concreta quais recursos já estão disponíveis na rotina. Tempo livre, pessoas de confiança, habilidades, atividades prazerosas e redes de apoio podem ser considerados na hora de reorganizar a vida. A intenção não é acrescentar mais uma tarefa à lista, mas identificar o que pode aliviar parte da sobrecarga existente.

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Para Danieli, esse movimento passa por reconhecer que o cuidado não pode continuar sendo uma responsabilidade exclusivamente feminina. A discussão sobre saúde mental também envolve divisão de tarefas, relações mais equilibradas e espaço para que cada pessoa possa estabelecer limites.

O problema, portanto, não está apenas na dificuldade individual de administrar uma agenda cheia. Quando o excesso de responsabilidades se torna permanente, o corpo e a mente podem sinalizar que aquela dinâmica deixou de ser sustentável. Olhar para esses sinais sem culpa é parte importante do cuidado.

Como resume Cintia, proteger a saúde mental das mulheres exige mais do que ensiná-las a suportar melhor uma rotina que já provoca sofrimento. Também é necessário perguntar quais expectativas foram colocadas sobre elas e o que pode ser transformado para que o cuidado deixe de significar, necessariamente, abrir mão de si mesma.

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FONTE:

oglobo.globo.com

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