Saúde
Do anticoncepcional à menopausa: como os hormônios femininos também influenciam a visão
No Dia Internacional da Mulher, especialista explica por que alterações do organismo podem afetar a saúde ocular ao longo da vida
Na semana em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, o tema autocuidado volta ao centro das discussões sobre saúde. Embora muitas mulheres estejam atentas a exames ginecológicos e check-ups de rotina, a visão ainda costuma ficar em segundo plano. No entanto, especialistas alertam que as variações hormonais ao longo da vida — desde o uso de anticoncepcionais até a gravidez e a menopausa — podem provocar alterações importantes na saúde ocular e merecem acompanhamento regular.
Segundo a Dra. Alice Purri, oftalmologista do Instituto de Olhos de Belo Horizonte (IOBH), os hormônios femininos influenciam diretamente o funcionamento de diversas estruturas do organismo, incluindo os olhos. “O sistema ocular também responde às mudanças hormonais. Ao longo da vida, essas oscilações podem afetar a produção de lágrimas, a curvatura da córnea e até a estabilidade do grau”, explica.
O uso de anticoncepcionais, por exemplo, pode interferir na qualidade do filme lacrimal, camada responsável por proteger e lubrificar a superfície ocular. Segundo a médica, algumas mulheres passam a apresentar sintomas de ressecamento, irritação e sensação de areia nos olhos. “Quando há alteração na composição da lágrima, a proteção natural diminui. Isso pode gerar desconforto, visão embaçada e maior sensibilidade à luz em determinados casos”, destaca.
Durante a gestação, as transformações no organismo são ainda mais intensas. O aumento de hormônios e a retenção de líquidos podem provocar pequenas mudanças na córnea, o que interfere temporariamente na qualidade visual. “Algumas pacientes percebem que o grau dos óculos parece não estar adequado ou notam flutuações na visão ao longo do dia. Por isso, sempre avaliamos com cautela a necessidade de atualizar a prescrição nesse período”, afirma.
Além dessas alterações, sintomas visuais também podem servir como alerta para complicações da gravidez. A especialista explica que quadros como a pré-eclâmpsia — caracterizada pelo aumento da pressão arterial — podem se manifestar por meio de alterações na visão. “Em algumas situações, a gestante pode apresentar turvação visual, pontos escuros no campo de visão ou flashes de luz. Esses sinais devem ser investigados rapidamente”, orienta.
Outro momento de atenção para a saúde ocular ocorre no climatério, fase de transição hormonal que antecede e sucede a menopausa. Nesse período, a redução do estrogênio pode afetar a produção lacrimal e favorecer o surgimento da síndrome do olho seco. “É comum que muitas mulheres relatem ardor, sensação de corpo estranho e necessidade frequente de usar colírios. Em alguns casos, o desconforto pode interferir até em atividades cotidianas, como leitura e uso de telas”, explica a oftalmologista.
Com o avanço da idade, também aumenta a probabilidade de desenvolvimento de doenças oculares associadas ao envelhecimento, como catarata, glaucoma e degeneração macular relacionada à idade. Por isso, o acompanhamento oftalmológico periódico torna-se ainda mais importante. “Muitas dessas condições evoluem de forma silenciosa no início. Consultas regulares permitem identificar alterações precocemente e iniciar o tratamento adequado”, ressalta a Dra. Alice Purri.
Neste mês dedicado às mulheres, a especialista reforça que cuidar da visão também faz parte da atenção integral à saúde. “O olhar acompanha todas as fases da vida. Estar atenta às mudanças do corpo e manter avaliações oftalmológicas periódicas são atitudes fundamentais para preservar a qualidade visual e o bem-estar ao longo do tempo”, finaliza a Dra. Alice Purri, oftalmologista do Instituto de Olhos de Belo Horizonte (IOBH).
Saúde
Uma em cada quatro pessoas idosas sofre queda em um ano; exercício pode ajudar a preservar capacidade funcional
Para o especialista Jauan Anselmo, dados da Fiocruz reforçam a importância de estratégias individualizadas para manutenção da força, equilíbrio e autonomia para quem entra a quem está na terceira idade.
Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, a prática de exercícios físicos ganha importância principalmente para a manutenção da força, da mobilidade e da independência. O desafio, segundo o profissional de Educação Física Jauan Anselmo, é adaptar a prescrição à realidade de um corpo que passa por mudanças progressivas, em vez de simplesmente reproduzir protocolos desenvolvidos para pessoas mais jovens.
A necessidade de um planejamento individualizado se torna ainda mais evidente diante dos riscos associados à perda de força e às quedas. Dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontam que 25,1% dos idosos brasileiros residentes em áreas urbanas sofreram ao menos uma queda em um período de 12 meses, o equivalente a uma em cada quatro pessoas.
Para Jauan, envelhecer não significa abandonar exercícios de força ou reduzir a atividade física a caminhadas. O que muda é a necessidade de controlar melhor variáveis como volume, intensidade, frequência, recuperação e complexidade dos movimentos.
“O corpo que envelhece continua respondendo ao treinamento e precisa dele. O erro está em acreditar que podemos manter indefinidamente a mesma carga, o mesmo volume e a mesma frequência que utilizávamos aos 20 ou 30 anos. A prescrição precisa acompanhar as mudanças do indivíduo. Em muitos casos, reduzir o volume e aumentar a qualidade do estímulo é justamente o que permite treinar por mais tempo, com segurança e funcionalidade”, explica.
Força para combater a perda muscular
A preocupação também passa pela sarcopenia, caracterizada pela redução de massa, força e função muscular. Segundo estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, da Universidade de São Paulo (USP), aponta prevalência de 5% a 13% entre pessoas com 65 anos ou mais, podendo chegar a 50% após os 80 anos.
“Treinar para envelhecer bem é entender qual estímulo aquele corpo consegue receber, assimilar e recuperar. A pessoa precisa desenvolver força suficiente para subir uma escada, levantar de uma cadeira, carregar uma sacola ou reagir a um desequilíbrio. O objetivo final é preservar a autonomia”, afirma o especialista em fisiologia do exercício.
Nesse cenário, o exercício físico é uma das ferramentas para preservar a capacidade funcional. Uma pesquisa longitudinal publicada em 2025 na Ageing International, com dados do UK Biobank, acompanhou 1.918 adultos de meia-idade e identificou que níveis maiores de atividade física de intensidade moderada a vigorosa estiveram associados a menor risco de desenvolvimento de sarcopenia.
Excesso também pode ser um problema
Se a ausência de atividade favorece a perda de capacidade física, o excesso de treinamento sem recuperação adequada também pode comprometer a evolução. A síndrome de overtraining, por exemplo, está associada a queda de desempenho, fadiga persistente, alterações musculares e imunológicas e maior ocorrência de problemas relacionados à recuperação.
Por isso, segundo Jauan – que atua na área de forma personalizada –, a lógica do treinamento para pessoas mais velhas deve considerar não apenas o exercício realizado, mas também sono, recuperação, histórico de lesões, doenças preexistentes, nível de condicionamento e resposta individual aos estímulos.
“Tentar combater o envelhecimento com uma lógica de treinamento que não respeita o próprio envelhecimento é um perigo. A pessoa que quer continuar ativa aos 60, 70 ou 80 anos precisa pensar em consistência, não em provar todos os dias quanto consegue suportar. Uma prescrição inteligente é aquela que permite que você continue treinando amanhã, no próximo mês e nos próximos anos”, conclui.
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