Entre as tarefas habituais, os moderadores relataram a exposição frequente a pedidos para encurtar saias de mulheres reais em fotos, aumentar seios por computação gráfica ou posicionar pessoas em poses sexuais sem consentimento. O material analisado inclui ainda montagens de personagens infantis em contextos eróticos e comandos voltados à apologia da anorexia.
Muitos dos funcionários contratados acreditavam que o trabalho servia para filtrar ou bloquear conteúdos ofensivos. No entanto, a função primária das equipes é verificar se o robô atendeu com precisão ao pedido do usuário, independentemente do teor da imagem ou do texto gerado.
Privacidade em risco e dependência do trabalho humano
A rotina de moderação expõe fragilidades na privacidade dos utilizadores, que muitas vezes presumem que as imagens enviadas para edição permanecem restritas ao processamento do robô. Na prática, arquivos pessoais e retratos passam pela triagem de profissionais contratados por plataformas parceiras, como a Prolific.
A empresa alega, no site oficial, que oferece avaliação humana de populações representativas para ajuste de preferências e testes de segurança. Procurada pelo 404 Media, a Prolific não se pronunciou sobre o caso.
Especialistas em tecnologia destacam que o funcionamento dos modelos de linguagem e de geração de imagem depende diretamente dessa infraestrutura de trabalho precário espalhada pelo mundo. Sem o processo manual de categorização e checagem, os robôs continuariam repetindo vieses e discursos de ódio coletados em grandes volumes de dados da internet.
“Eles são impressionantes, mas o ChatGPT e outros modelos generativos não são mágica. Eles dependem de cadeias massivas de suprimento de trabalho humano e dados raspados, muitos dos quais não são atribuídos e são usados sem consentimento”, escreveu o especialista em ética em IA Andrew Strait, em publicação nas redes sociais documentada pela TIME.
Traumas psicológicos e o caso no Quênia
A experiência da OpenAI com a terceirizada Sama na Quênia exemplifica os impactos psicológicos desse tipo de atividade. Os trabalhadores recebiam salários equivalentes a um valor entre US$ 1,32 e US$ 2 por hora para ler centenas de passagens de texto diárias sobre abusos graves.
O impacto emocional e a identificação de imagens ilegais levaram o contrato entre a Sama e a OpenAI a ser cancelado precocemente em 2022.
A OpenAI declarou à revista TIME que a classificação de conteúdos nocivos é uma etapa necessária para minimizar a presença de material violento ou sexual nos modelos de treino.
A empresa ressaltou que não impunha metas de produtividade e que entendia que a parceira terceirizada oferecia suporte de saúde mental aos funcionários.