Saúde
Peixe ou chocolate? Como lidar com o cardápio da Semana Santa
Entre o silêncio respeitoso da Sexta-feira Santa e o sabor doce que anuncia a Páscoa, a mesa do brasileiro se transforma. Peixes ganham protagonismo, enquanto o chocolate surge como tentação quase inevitável. Mas, afinal, é possível harmonizar tradição e saúde nesse período? A resposta é sim e passa menos pela restrição e mais pela consciência.
Segundo a professora Camila Mognatti, coordenadora do curso de Nutrição da Estácio Brasília, o segredo está no equilíbrio. Tanto o peixe quanto o chocolate podem fazer parte de uma alimentação saudável, desde que haja moderação e boas escolhas. Enquanto os peixes oferecem proteínas de alta qualidade, gorduras boas e nutrientes essenciais, o chocolate, especialmente o amargo com 70% de cacau ou mais, pode contribuir com antioxidantes que ajudam a reduzir o estresse no organismo.
Na tradição cristã, o consumo de peixe simboliza leveza e renovação. Do ponto de vista nutricional, essa percepção faz sentido. De fácil digestão, o alimento é fonte de proteína completa e, em algumas espécies como salmão, sardinha e atum, concentra ômega 3, gordura associada à saúde cardiovascular e à redução de inflamações. É um alimento que contribui tanto para a manutenção muscular quanto para o bom funcionamento do organismo como um todo.
Já o chocolate, frequentemente tratado como vilão da Páscoa, pode assumir um papel mais amigável. A recomendação é priorizar versões com maior teor de cacau, menos açúcar e consumo moderado. O problema não está no chocolate em si, mas na quantidade e na frequência. Também é importante atenção aos ovos industrializados recheados, muitas vezes ricos em açúcares, gorduras e aditivos. Alternativas como barras de melhor qualidade ou versões artesanais mais simples podem ser escolhas mais equilibradas.
Cuidados
Para quem opta por substituir a carne vermelha pelo peixe durante o período, alguns cuidados são essenciais. A procedência e a conservação devem ser observadas com atenção. Peixes frescos têm odor suave, olhos brilhantes e carne firme. No preparo, métodos como grelhar, assar ou cozinhar preservam os nutrientes e evitam excessos de gordura. Frituras e molhos muito calóricos podem comprometer os benefícios do alimento.
Outro ponto importante é a composição do prato. Como o peixe possui menor teor de ferro em comparação à carne vermelha, a recomendação é combiná-lo com alimentos ricos nesse mineral, como feijões e vegetais verde escuros. Ainda assim, a especialista sugere variedade ao longo da alimentação. O ideal é fazer um rodízio entre os tipos de proteína animal.
Nas casas com crianças, a criatividade pode ser aliada. Preparações como hambúrgueres de peixe, bolinhos caseiros ou filés assados com temperos suaves ajudam a tornar o consumo mais atrativo. Espécies como tilápia e pescada, de sabor mais delicado, costumam ter melhor aceitação. Para acompanhar, pratos coloridos com arroz, feijão, legumes e verduras garantem equilíbrio nutricional e agradam ao paladar.
No fim das contas, a Semana Santa pode e deve ser um convite ao equilíbrio. Entre tradição e saúde, entre o salgado e o doce, entre o prazer e o cuidado. Porque, à mesa, o verdadeiro sentido da data também se revela na forma como escolhemos nos nutrir.
Camila Mognatti, coordenadora do Curso de Nutrição da Estácio Brasília
Saúde
Uma em cada quatro pessoas idosas sofre queda em um ano; exercício pode ajudar a preservar capacidade funcional
Para o especialista Jauan Anselmo, dados da Fiocruz reforçam a importância de estratégias individualizadas para manutenção da força, equilíbrio e autonomia para quem entra a quem está na terceira idade.
Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, a prática de exercícios físicos ganha importância principalmente para a manutenção da força, da mobilidade e da independência. O desafio, segundo o profissional de Educação Física Jauan Anselmo, é adaptar a prescrição à realidade de um corpo que passa por mudanças progressivas, em vez de simplesmente reproduzir protocolos desenvolvidos para pessoas mais jovens.
A necessidade de um planejamento individualizado se torna ainda mais evidente diante dos riscos associados à perda de força e às quedas. Dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontam que 25,1% dos idosos brasileiros residentes em áreas urbanas sofreram ao menos uma queda em um período de 12 meses, o equivalente a uma em cada quatro pessoas.
Para Jauan, envelhecer não significa abandonar exercícios de força ou reduzir a atividade física a caminhadas. O que muda é a necessidade de controlar melhor variáveis como volume, intensidade, frequência, recuperação e complexidade dos movimentos.
“O corpo que envelhece continua respondendo ao treinamento e precisa dele. O erro está em acreditar que podemos manter indefinidamente a mesma carga, o mesmo volume e a mesma frequência que utilizávamos aos 20 ou 30 anos. A prescrição precisa acompanhar as mudanças do indivíduo. Em muitos casos, reduzir o volume e aumentar a qualidade do estímulo é justamente o que permite treinar por mais tempo, com segurança e funcionalidade”, explica.
Força para combater a perda muscular
A preocupação também passa pela sarcopenia, caracterizada pela redução de massa, força e função muscular. Segundo estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, da Universidade de São Paulo (USP), aponta prevalência de 5% a 13% entre pessoas com 65 anos ou mais, podendo chegar a 50% após os 80 anos.
“Treinar para envelhecer bem é entender qual estímulo aquele corpo consegue receber, assimilar e recuperar. A pessoa precisa desenvolver força suficiente para subir uma escada, levantar de uma cadeira, carregar uma sacola ou reagir a um desequilíbrio. O objetivo final é preservar a autonomia”, afirma o especialista em fisiologia do exercício.
Nesse cenário, o exercício físico é uma das ferramentas para preservar a capacidade funcional. Uma pesquisa longitudinal publicada em 2025 na Ageing International, com dados do UK Biobank, acompanhou 1.918 adultos de meia-idade e identificou que níveis maiores de atividade física de intensidade moderada a vigorosa estiveram associados a menor risco de desenvolvimento de sarcopenia.
Excesso também pode ser um problema
Se a ausência de atividade favorece a perda de capacidade física, o excesso de treinamento sem recuperação adequada também pode comprometer a evolução. A síndrome de overtraining, por exemplo, está associada a queda de desempenho, fadiga persistente, alterações musculares e imunológicas e maior ocorrência de problemas relacionados à recuperação.
Por isso, segundo Jauan – que atua na área de forma personalizada –, a lógica do treinamento para pessoas mais velhas deve considerar não apenas o exercício realizado, mas também sono, recuperação, histórico de lesões, doenças preexistentes, nível de condicionamento e resposta individual aos estímulos.
“Tentar combater o envelhecimento com uma lógica de treinamento que não respeita o próprio envelhecimento é um perigo. A pessoa que quer continuar ativa aos 60, 70 ou 80 anos precisa pensar em consistência, não em provar todos os dias quanto consegue suportar. Uma prescrição inteligente é aquela que permite que você continue treinando amanhã, no próximo mês e nos próximos anos”, conclui.
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