Politica
‘Tragédia se transformou em propósito’, diz mãe de Isabella Nardoni ao se lançar candidata a vereadora em SP
A vítima do crime foi Isabella Nardoni, e os autores, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, condenados por homicídio doloso. Eles passaram mais de uma década na cadeia até que, em junho de 2023, Jatobá alcançou a progressão de pena para o regime aberto. Em maio deste ano, foi a vez de Nardoni.
Ao site IstoÉ, a mãe da vítima afirmou que o trauma pessoal que sofreu não pode ser esquecido, mas ressaltou que, em seu caso, ao contrário de milhares de outros, “a justiça foi feita à época”. Ao se lançar candidata, a promessa é de honrar o propósito que a tragédia lhe deu: “Minha luta será pela proteção das vítimas”.
Defesa de causa
Em meados de 2023, Oliveira começou a participar de podcasts e produzir vídeos autorais em suas redes sociais, falando sobre maternidade — ela tem três filhos — e superação de traumas. Neste ano, passou a usar o espaço para opinar sobre crimes contra vulneráveis e defender teses como a de que a sociedade brasileira tem “memória curta” para delitos e que a restrição de liberdade deve ser estendida em casos mais graves.
No meio tempo, Nardoni e Jatobá deixaram a prisão, e sua popularidade digital se consolidou. Seus primeiros vídeos na plataforma têm de 270 mil a 640 mil visualizações; mais recentemente, não é raro encontrar exemplares com mais de um milhão de acessos.
Oliveira acredita que o alcance na internet pode ajudá-la no financiamento da campanha para a Câmara Municipal. Ela está em um partido, o Podemos, que não tem orçamento robusto — oitavo na distribuição do fundo eleitoral — e tampouco possui bandeiras ideológicas claras.
Mas as pautas defendidas por Oliveira têm apelo, e isso é inegável. A busca por Justiça para vítimas e familiares que remanescem de crimes hediondos — especialmente os cometidos contra crianças — é uma unanimidade, e a manutenção da restrição de liberdade mais dura para autores desses delitos, ainda que seja controversa no direito penal, é uma tese com muitos adeptos na cidade.
Ocorre que a alteração do Código Penal é de competência dos parlamentares que estão no Congresso Nacional, em Brasília, sob a guarda da sanção presidencial. Ao site IstoÉ, Oliveira afirmou que reconhece essas limitações, mas entende que a atuação legislativa municipal permite iniciativas complementares.
“Pretendo atuar por um monitoramento mais rigoroso para condenados em regime semiaberto ou que recebam benefícios como a progressão de pena [casos de Jatobá e Nardoni] ou as ‘saidinhas’ temporárias. São iniciativas possíveis, que complementam a legislação penal. Além disso, a representatividade do cargo pode me permitir apoiar e promover mudanças na legislação penal junto a deputados e senadores”, disse.
Caso se eleja, ela ainda pretende apresentar “um projeto que consiste em conectar pessoas que possam ajudar vítimas de crimes. O objetivo é unir médicos, psicólogos, pedagogos, advogados, entre outros profissionais que possam ajudar vítimas que tiveram suas vozes silenciadas e que estão em busca de justiça ou de alguma ajuda”.
Mas o cumprimento desses objetivos depende da conclusão de uma série de etapas, da campanha às votações em plenário, marcadas por confrontos duros, inflamados por um quadro de polarização crescente, em que políticos não hesitam em fazer ataques pessoais ou levantar temas sensíveis para desestabilizar seus oponentes. Oliveira se disse ciente e disposta a enfrentar esse cenário: “Sei que muitas pessoas podem usar esse tema [o assassinato de sua filha] para me atacar, faz parte desse processo, infelizmente muitos estão dispostos a fazer qualquer coisa para derrubar o outro. Mas tendo princípios firmados e a certeza de quem eu sou e do que eu vivi, isso não será uma preocupação”.
Curiosidades
MPT apura carta de supermercado a funcionários com teor eleitoral
O Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro (MPT-RJ) informou nesta sexta-feira (23) que registrou uma Notícia de Fato (NF) para apurar o envio de uma carta pela rede de Supermercados Zona Sul a seus funcionários, às vésperas da eleição.
No texto, a rede defende o “voto consciente” e mudança. Assinado pelo presidente da empresa, o documento “não cita nominalmente nenhum candidato, mas defende uma revisão de prioridades, posturas e modelos”.
O comunicado foi denunciado pelo vereador Rick Azevedo (Psol), eleito deputado federal. Ele escreveu que “a rede de supermercados de elite da zona sul distribuiu aos funcionários uma carta assinada pelo presidente da empresa em defesa do “voto consciente”. O texto fala em “esgotamento de ciclo e “necessidade de mudança”.
“Isso é assédio eleitoral. Cadê o TSE?”, disse o parlamentar.
O Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro também entrou com uma ação na Justiça contra a rede de supermercados Zona Sul.
Em nota, a entidade afirma que, ao utilizar sua posição de empregador para disseminar esse tipo de mensagem entre os trabalhadores, a empresa ultrapassa uma linha que precisa ser respeitada.
“Patrão nenhum é dono da consciência política de seus funcionários. Nem pode coagir”, alerta o sindicato.
“Por trás de discursos genéricos sobre a necessidade de mudar o país, existem interesses políticos e econômicos em disputa. E os interesses de quem emprega nem sempre são os mesmos de quem vive do próprio salário – especialmente quando estão em jogo direitos trabalhistas e conquistas históricas, como o fim da escala 6×1.”
A Agência Brasil não conseguiu contato com a direção da rede de supermercados Zona Sul. O espaço segue aberto para manifestação.
* Matéria atualizada para complementação de informações.
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