Educação
Como escolher uma escola de Educação Infantil: veja o que observar antes da matrícula
Proposta pedagógica, relações e acompanhamento do desenvolvimento estão entre os aspectos que os pais devem se atentar antes de decisões
Cerca de 18 milhões de crianças vivem atualmente a primeira infância no Brasil, segundo a plataforma PI em Dados. Para muitas famílias, essa etapa também é o momento de começar a escolher a escola de educação infantil. Antes de tomar a decisão, porém, é importante observar mais do que estrutura, localização e mensalidade. Conhecer a proposta pedagógica, a rotina, os espaços e a forma como a instituição entende e acompanha o desenvolvimento da criança pode ajudar os pais a fazer uma escolha mais consciente.
“Primeiramente, é muito importante buscar uma escola cujos valores, condutas e concepção de infância estejam alinhados aos da família”, afirma Vivian Alboz, doutora em Educação pela PUC-SP e diretora pedagógica da Educação Infantil da Escola Lourenço Castanho, na zona sul de São Paulo. Para ela, os pais devem perguntar não apenas o que a criança vai aprender, mas como esse processo será conduzido e de que maneira ela será acolhida no cotidiano.
Nos primeiros anos de vida, a criança desenvolve identidade, autonomia, curiosidade e sua relação com a aprendizagem. Por isso, a escolha da instituição também passa pela forma como ela entende essa etapa. “Uma boa escola é aquela que reconhece a criança como protagonista, respeita seus tempos de desenvolvimento, valoriza as interações, as experiências significativas, a brincadeira, a investigação e a construção de vínculos”, diz Vivian.
Essa concepção pode ser percebida durante uma visita, uma vez que os pais devem observar como os adultos se relacionam com as crianças, como os conflitos são conduzidos e se os alunos têm espaço para fazer escolhas, circular e participar das atividades. “Muitas vezes as famílias se encantam primeiro pela infraestrutura, mas é importante observar principalmente as relações humanas que acontecem dentro da escola. São elas que sustentam o desenvolvimento e o bem-estar da criança”, afirma Gabriela Kogachi, diretora pedagógica de Educação Infantil e Anos Iniciais da mesma instituição.
“Escolher a escola é escolher um ambiente no qual a criança passará momentos importantes de seus dias, construirá vínculos, aprenderá a conviver com outras crianças e viverá experiências significativas para sua formação”, afirma Mariana Buratto Cardoso, pedagoga pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenadora da Educação Infantil e Fundamental Anos Iniciais da Escola Gracinha, em São Paulo.
Ela também compartilha da importância de que a família deve conhecer a proposta pedagógica e verificar se os princípios apresentados pela escola podem ser percebidos no cotidiano. Segundo Mariana, a Educação Infantil não deve antecipar atividades do Ensino Fundamental, mas oferecer múltiplas experiências que envolvam brincadeiras, investigação, literatura, artes, música, movimento, oralidade, escrita e contato com diferentes manifestações culturais.
Os espaços também revelam a proposta da escola. Mais do que ambientes bonitos e equipados, vale observar se há produções das crianças, registros dos processos vividos, livros de literatura de qualidade, variados e acessíveis às crianças, além de materiais que estimulem investigação, construção e criação.
Nas áreas externas, é importante verificar se existem possibilidades de movimento, exploração e brincadeiras. “Um bom espaço também é aquele que oferece possibilidades para que a criança invente o que fazer com ele”, finaliza Mariana.
Pontos para observar na escolha:
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Observe como os educadores conversam, escutam e acolhem as crianças;
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Veja se os ambientes estimulam autonomia, movimento, exploração e convivência;
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Entenda se há equilíbrio entre aprendizagem, brincadeira livre, interação e descanso;
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Visite a escola em funcionamento;
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Conheça a proposta pedagógica e veja como ela aparece na rotina;
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Informe-se sobre a formação dos professores e o acompanhamento de cada criança.
Sobre Vivian Alboz
Doutora em Educação pela PUC-SP, com áreas de pesquisa em formação de professores em contexto; educação infantil; e alfabetização, Vivian Alboz é diretora pedagógica da Educação Infantil da Escola Lourenço Castanho, tendo atuado por mais de 10 anos como coordenadora pedagógica da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
Sobre Gabriela Kogachi
Gabriela Kogachi é diretora pedagógica de Educação Infantil e Anos Iniciais da Escola Lourenço Castanho, mestranda em Currículo e Educação na PUC-SP, pós-graduada em Convivência Ética na Escola.
Sobre Mariana Buratto Cardoso
Pedagoga pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Coordenadora pedagógica da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental na Escola Gracinha, em São Paulo. Possui pós-graduação em Educação Inclusiva e Psicopedagogia Escolar pelo Instituto Singularidades e em Relações Interpessoais na Escola: das competências socioemocionais à personalidade ética pelo Instituto Superior de Educação Vera Cruz.
Sobre a Escola Lourenço Castanho
Oferece um projeto pedagógico inovador, que extrapola o trabalho com os conteúdos produzidos pelas grandes áreas do conhecimento, investindo também no desenvolvimento da autonomia e da crítica, na análise da dimensão social construída pelos estudantes e na vinculação com o saber. Ao longo dos anos, a Escola mantém o compromisso com seus princípios, consolidando a formação integral como a base de seu projeto pedagógico-educacional.
Sobre a Escola Gracinha
A Escola Gracinha é mantida pela Associação Pela Família, uma organização sem fins lucrativos, que alia tradição e inovação para formar estudantes críticos, criativos e conscientes. Da Educação Infantil ao Ensino Médio, valoriza o protagonismo, a colaboração e os aprendizados significativos, em uma comunidade acolhedora e comprometida com a construção de um mundo mais justo e sustentável.
Educação
Crianças no ambiente digital: por que proteger não significa apenas limitar o tempo de tela?
Especialistas defendem que famílias, escolas, plataformas e poder público compartilhem a responsabilidade pela segurança de crianças e adolescentes na internet
Para muitas crianças e adolescentes, a internet já faz parte da rotina. No Brasil, 93% das pessoas de 9 a 17 anos haviam usado a internet nos três meses anteriores à pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, e 83% dos usuários já tinham perfil próprio em plataformas digitais. O cenário mostra que o desafio vai além de controlar o tempo de tela: é preciso preparar os mais jovens para um ambiente que oferece informação e entretenimento, mas também envolve conteúdos inadequados, contatos com desconhecidos e outros riscos.
A discussão sobre tecnologia na infância costuma se concentrar no número de horas diante das telas, mas, para Patrícia Blanco, do Instituto Palavra Aberta, é preciso considerar também a qualidade desse uso. “Duas horas dedicadas a uma aula de matemática, por exemplo, representam um uso diferente de duas horas de rolagem contínua nas redes sociais”, afirma. A própria TIC Kids Online aponta sinais de uso excessivo: entre usuários de 11 a 17 anos, 24% tentaram passar menos tempo na internet sem conseguir, enquanto 22% disseram ter deixado de dedicar tempo suficiente à família, aos amigos ou às tarefas escolares por permanecerem conectados.
O papel da escola na educação digital
Para Áurea Bartoli, diretora de Formação Integral da Heavenly International School, a escola precisa ir além da restrição e ajudar crianças e adolescentes a desenvolver critérios para se relacionar com a tecnologia. “Como educadores, sabemos que só limitar o uso não basta. A tecnologia precisa ser apresentada dentro de uma intencionalidade educativa, para que o aluno aprenda não apenas a utilizar uma ferramenta, mas também a compreender quando utilizá-la, para quê e quais consequências aquele uso pode produzir”, afirma.
Esse processo passa também por uma educação progressiva da liberdade. “Nosso objetivo não é formar um aluno que faça boas escolhas apenas porque um adulto está supervisionando. A educação precisa ajudá-lo, progressivamente, a desenvolver critérios para escolher bem também quando ninguém está olhando. Isso vale para a vida e vale para o ambiente digital”, explica Áurea.
Na adolescência, essa formação ganha contornos ainda mais importantes. Pertencimento, reconhecimento e aprovação passam a ocupar um espaço significativo nas relações. “Ajudar o aluno a compreender quem é, o que valoriza e quais critérios orientam suas escolhas também é uma forma de prepará-lo para lidar com um ambiente em que comparação, exposição e busca por aprovação estão presentes o tempo todo”, diz.
Para Áurea, esse aprendizado exige uma atuação próxima entre escola e família. “A educação digital precisa ser construída em parceria com as famílias. Quando escola e família compartilham critérios, linguagem e referências, a criança encontra mais segurança para compreender limites e, principalmente, para pedir ajuda quando alguma coisa acontece.” Ela destaca ainda a importância de crianças e adolescentes reconhecerem os adultos de referência aos quais podem recorrer diante de situações de desconforto, exposição ou risco no ambiente digital.
Para a criadora de conteúdo e mãe Carol Peluffo, o diálogo é uma das principais ferramentas para acompanhar a relação dos filhos com a tecnologia. “A gente não consegue supervisionar o adolescente o tempo inteiro. Por isso, é fundamental construir uma relação de confiança para que ele saiba que pode conversar com os pais quando alguma coisa acontecer no ambiente digital”, afirma. Ela também chama atenção para a exposição da imagem de crianças e adolescentes nas redes. “É preciso pensar na privacidade e respeitar, principalmente no caso do adolescente, se ele quer ou não aquela exposição”, diz.
Proteção exige responsabilidade compartilhada
A proteção de crianças e adolescentes na internet ganhou um novo marco legal com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), instituído pela Lei nº 15.211/2025. A legislação estabelece medidas para reduzir riscos no ambiente digital e prevê responsabilidades para as plataformas, incluindo mecanismos relacionados à supervisão parental, aferição de idade, publicidade e prevenção de conteúdos prejudiciais. Para Patrícia, a responsabilidade precisa ser compartilhada: “Proteger não significa proibir. Família, escola, Estado, plataformas, provedores e produtores de conteúdo precisam assumir responsabilidades conjuntas para que crianças e adolescentes possam desenvolver autonomia de forma segura”.
As próprias plataformas vêm ampliando recursos de proteção. Segundo Margareth Kang, da Meta, as Contas de Adolescente reúnem restrições de conteúdo, limitações de contato com desconhecidos e ferramentas de supervisão parental. “A ideia é criar uma experiência adequada à faixa etária, com mais proteção para os adolescentes mais novos e uma autonomia progressiva conforme eles avançam de idade”, explica. Ela também defende mecanismos que permitam identificar melhor a idade dos usuários, já que crianças e adolescentes circulam por diferentes serviços digitais.
Em 2024, 70% dos usuários de 9 a 17 anos acessavam o WhatsApp diariamente ou várias vezes ao dia; no YouTube, eram 66%, no Instagram, 60%, e no TikTok, 50%, segundo a TIC Kids Online Brasil. Diante dessa presença constante, especialistas defendem que a educação digital seja contínua, envolvendo escola, família e empresas de tecnologia. “Esse é um tema relativamente novo e muito intenso para a sociedade. Surgem diariamente novas ferramentas, comportamentos e riscos. Por isso, a educação para o uso responsável da tecnologia não pode acontecer apenas em uma aula ou campanha; precisa ser um processo contínuo”, conclui Áurea.
A internet pode ser um espaço de aprendizado, criatividade, informação e socialização. O desafio, portanto, não é simplesmente afastar crianças e adolescentes das telas, mas ensinar a fazer escolhas, reconhecer riscos, proteger a própria privacidade e buscar ajuda quando necessário, construindo autonomia de forma gradual e segura.
CRÉDITOS:
Divulgação Heavenly International School
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