Educação
Crianças no ambiente digital: por que proteger não significa apenas limitar o tempo de tela?
Especialistas defendem que famílias, escolas, plataformas e poder público compartilhem a responsabilidade pela segurança de crianças e adolescentes na internet
Para muitas crianças e adolescentes, a internet já faz parte da rotina. No Brasil, 93% das pessoas de 9 a 17 anos haviam usado a internet nos três meses anteriores à pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, e 83% dos usuários já tinham perfil próprio em plataformas digitais. O cenário mostra que o desafio vai além de controlar o tempo de tela: é preciso preparar os mais jovens para um ambiente que oferece informação e entretenimento, mas também envolve conteúdos inadequados, contatos com desconhecidos e outros riscos.
A discussão sobre tecnologia na infância costuma se concentrar no número de horas diante das telas, mas, para Patrícia Blanco, do Instituto Palavra Aberta, é preciso considerar também a qualidade desse uso. “Duas horas dedicadas a uma aula de matemática, por exemplo, representam um uso diferente de duas horas de rolagem contínua nas redes sociais”, afirma. A própria TIC Kids Online aponta sinais de uso excessivo: entre usuários de 11 a 17 anos, 24% tentaram passar menos tempo na internet sem conseguir, enquanto 22% disseram ter deixado de dedicar tempo suficiente à família, aos amigos ou às tarefas escolares por permanecerem conectados.
O papel da escola na educação digital
Para Áurea Bartoli, diretora de Formação Integral da Heavenly International School, a escola precisa ir além da restrição e ajudar crianças e adolescentes a desenvolver critérios para se relacionar com a tecnologia. “Como educadores, sabemos que só limitar o uso não basta. A tecnologia precisa ser apresentada dentro de uma intencionalidade educativa, para que o aluno aprenda não apenas a utilizar uma ferramenta, mas também a compreender quando utilizá-la, para quê e quais consequências aquele uso pode produzir”, afirma.
Esse processo passa também por uma educação progressiva da liberdade. “Nosso objetivo não é formar um aluno que faça boas escolhas apenas porque um adulto está supervisionando. A educação precisa ajudá-lo, progressivamente, a desenvolver critérios para escolher bem também quando ninguém está olhando. Isso vale para a vida e vale para o ambiente digital”, explica Áurea.
Na adolescência, essa formação ganha contornos ainda mais importantes. Pertencimento, reconhecimento e aprovação passam a ocupar um espaço significativo nas relações. “Ajudar o aluno a compreender quem é, o que valoriza e quais critérios orientam suas escolhas também é uma forma de prepará-lo para lidar com um ambiente em que comparação, exposição e busca por aprovação estão presentes o tempo todo”, diz.
Para Áurea, esse aprendizado exige uma atuação próxima entre escola e família. “A educação digital precisa ser construída em parceria com as famílias. Quando escola e família compartilham critérios, linguagem e referências, a criança encontra mais segurança para compreender limites e, principalmente, para pedir ajuda quando alguma coisa acontece.” Ela destaca ainda a importância de crianças e adolescentes reconhecerem os adultos de referência aos quais podem recorrer diante de situações de desconforto, exposição ou risco no ambiente digital.
Para a criadora de conteúdo e mãe Carol Peluffo, o diálogo é uma das principais ferramentas para acompanhar a relação dos filhos com a tecnologia. “A gente não consegue supervisionar o adolescente o tempo inteiro. Por isso, é fundamental construir uma relação de confiança para que ele saiba que pode conversar com os pais quando alguma coisa acontecer no ambiente digital”, afirma. Ela também chama atenção para a exposição da imagem de crianças e adolescentes nas redes. “É preciso pensar na privacidade e respeitar, principalmente no caso do adolescente, se ele quer ou não aquela exposição”, diz.
Proteção exige responsabilidade compartilhada
A proteção de crianças e adolescentes na internet ganhou um novo marco legal com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), instituído pela Lei nº 15.211/2025. A legislação estabelece medidas para reduzir riscos no ambiente digital e prevê responsabilidades para as plataformas, incluindo mecanismos relacionados à supervisão parental, aferição de idade, publicidade e prevenção de conteúdos prejudiciais. Para Patrícia, a responsabilidade precisa ser compartilhada: “Proteger não significa proibir. Família, escola, Estado, plataformas, provedores e produtores de conteúdo precisam assumir responsabilidades conjuntas para que crianças e adolescentes possam desenvolver autonomia de forma segura”.
As próprias plataformas vêm ampliando recursos de proteção. Segundo Margareth Kang, da Meta, as Contas de Adolescente reúnem restrições de conteúdo, limitações de contato com desconhecidos e ferramentas de supervisão parental. “A ideia é criar uma experiência adequada à faixa etária, com mais proteção para os adolescentes mais novos e uma autonomia progressiva conforme eles avançam de idade”, explica. Ela também defende mecanismos que permitam identificar melhor a idade dos usuários, já que crianças e adolescentes circulam por diferentes serviços digitais.
Em 2024, 70% dos usuários de 9 a 17 anos acessavam o WhatsApp diariamente ou várias vezes ao dia; no YouTube, eram 66%, no Instagram, 60%, e no TikTok, 50%, segundo a TIC Kids Online Brasil. Diante dessa presença constante, especialistas defendem que a educação digital seja contínua, envolvendo escola, família e empresas de tecnologia. “Esse é um tema relativamente novo e muito intenso para a sociedade. Surgem diariamente novas ferramentas, comportamentos e riscos. Por isso, a educação para o uso responsável da tecnologia não pode acontecer apenas em uma aula ou campanha; precisa ser um processo contínuo”, conclui Áurea.
A internet pode ser um espaço de aprendizado, criatividade, informação e socialização. O desafio, portanto, não é simplesmente afastar crianças e adolescentes das telas, mas ensinar a fazer escolhas, reconhecer riscos, proteger a própria privacidade e buscar ajuda quando necessário, construindo autonomia de forma gradual e segura.
CRÉDITOS:
Divulgação Heavenly International School
Cultura
Jornada Pacto pelo Turismo Responsável promove debate sobre governança e atuação em rede no DF
Com foco na governança e na colaboração entre os diferentes atores do setor, o Instituto Bancorbrás e o Sebrae/DF realizaram o sexto encontro da Jornada Pacto pelo Turismo Responsável, em Brasília. No dia 6 de outubro, mais de 60 pessoas ligadas ao ecossistema turístico do Distrito Federal se reuniram para discutir a importância da governança como um dos pilares do turismo sustentável. Com o tema “Governança e atuação em rede no turismo”, a atividade foi conduzida por Camila Bassi, secretária-geral da Rede Brasileira de Trilhas, que compartilhou experiências e conhecimentos com os participantes.
O encontro aconteceu no Cabríssima, empreendimento de turismo rural localizado no Lago Oeste. Além da capacitação sobre governança, a programação contou ainda com um tour pela propriedade, que proporcionou aos participantes o contato direto com as cabras, a agrofloresta e outras iniciativas sustentáveis desenvolvidas na fazenda. A experiência foi complementada por um brunch com produtos artesanais locais, valorizando a produção regional e a conexão com o território.
“Encontros como esse são importantes porque criam oportunidades para que os profissionais do turismo troquem experiências, fortaleçam conexões e encontrem caminhos para trabalhar juntos. A parceria com o Sebrae/DF é fundamental para ampliar esse diálogo e fortalecer o turismo responsável no Distrito Federal. Para o Instituto Bancorbrás, fazer parte dessa construção significa contribuir ativamente para conectar os diferentes atores do setor, valorizar os empreendimentos locais e estimular um turismo capaz de gerar oportunidades e benefícios para as comunidades e os territórios”, destaca Roberta Abreu, Gerente Executiva do Instituto Bancorbrás.
“Foi uma alegria realizar mais um encontro com casa cheia! Esse resultado reforça o nosso compromisso de levar a Jornada Pacto pelo Turismo Responsável a empreendimentos que fazem a diferença no Distrito Federal. Nosso objetivo é descentralizar as ações e proporcionar aos participantes uma experiência mais próxima e enriquecedora do nosso território”, completa Nathália Fabrino, analista do Sebrae DF.
Jornada Pacto pelo Turismo Responsável
A Jornada Pacto pelo Turismo Responsável é uma iniciativa conjunta do Sebrae/DF e do Instituto Bancorbrás que busca capacitar empreendedores e profissionais do setor para a adoção de práticas sustentáveis, éticas e inclusivas. O projeto contribui para fortalecer o turismo como ferramenta de desenvolvimento econômico e social no Distrito Federal, incentivando iniciativas responsáveis e a valorização dos empreendimentos e territórios locais.
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