Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Social

IA reforça estereótipos de gênero entre jovens: meninas aparecem como frágeis em 56% dos casos e mais ligadas às ciências sociais

Publicado em

O algoritmo recomenda às mulheres jovens buscar aprovação externa para “sentirem-se validadas” seis vezes mais do que aos homens.

A Inteligência Artificial deixou de ser uma ferramenta pontual para se tornar um interlocutor central na formação da identidade e das ambições da juventude. O relatório “Miragem da IA, um reflexo incômodo com alto impacto nos jovens”, elaborado pela LLYC no âmbito do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, revela que, longe de ser neutra, essa tecnologia valida estereótipos do passado e amplifica preconceitos históricos.

Os dados do estudo mostram que a IA não responde da mesma forma a meninos e meninas. Em 56% dos casos, as respostas rotulam as jovens como “frágeis”, colocando-as em uma posição de vulnerabilidade. Além disso, a inteligência artificial recomenda que as mulheres busquem validação externa seis vezes mais do que os homens e redireciona 75% de suas vocações para as áreas da saúde e das ciências sociais.

Advertisement

“Não é a IA que está enviesada, mas a realidade. O relatório confirma que a inteligência artificial não corrige os déficits que temos. Ela reflete e amplifica uma superproteção às mulheres, a ponto de reduzir sua autonomia, perpetua os tetos de vidro e reforça a pressão estética. Em suma, não questiona os papéis tradicionais, mas os legitima. A verdade é que, se a realidade não mudar, não podemos esperar que a IA mude suas respostas”, afirma Luisa García, sócia e CEO Global de Corporate Affairs na LLYC e coordenadora do estudo.

O estudo, realizado em 12 países ao longo de 2025, analisou o impacto da inteligência artificial sobre jovens de 16 a 25 anos por meio da análise massiva de 9.600 recomendações e do exame de cinco grandes modelos de IA (entre eles, ChatGPT, Gemini e Grok).

Leia Também:  Secretário do Entorno reúne presidentes de Câmaras para alinhar ações em prol da região

Seu futuro nas mãos de um chatbot: o fim do conselho neutro
A dependência dos jovens em relação aos modelos de linguagem (LLMs) atingiu um ponto de inflexão: 31% dos adolescentes afirmam que conversar com um chatbot é tão ou mais satisfatório do que conversar com um amigo real, segundo relatório do Plan International. Esse deslocamento relacional confere à máquina um papel de conselheira cuja orientação não é neutra, mas formativa. O relatório da LLYC apresenta, nesse sentido, números preocupantes:

Advertisement
  • A “amiga tóxica” digital: nas interações com mulheres, uma em cada três respostas da IA adota um tom de “amizade”, padrão 13% mais frequente do que nas interações com homens.
  • Validação versus ação: a IA se personifica 2,5 vezes mais nas interações com mulheres, utilizando expressões como “eu te entendo” e priorizando a empatia artificial em vez de soluções técnicas. Já com os homens, a linguagem é mais direta, marcada por verbos no imperativo (“faça”, “diga”, “vá”), reforçando a ideia do homem como sujeito de ação.

O “teto de vidro programado”: segregação desde o algoritmo
A IA orienta vocações. O algoritmo redireciona mulheres até três vezes mais para áreas como ciências sociais e saúde, enquanto incentiva nos homens trajetórias ligadas à liderança e à engenharia.

  • Sucesso sob suspeita: a IA considera “impressionante” que uma mulher ganhe mais do que um homem — reação que não ocorre no sentido inverso. Em nove de cada dez consultas nas quais elas aparecem em minoria profissional, a IA constrói cenários laborais hostis.
  • Duplo critério emocional: diante de conflitos, a IA “politiza” o mal-estar feminino ao vinculá-lo ao sistema ou ao patriarcado em 33% dos casos, enquanto despolitiza o mal-estar masculino, associando-o ao autocontrole ou à patologização individual.
Leia Também:  Mulher moderna: a Importância do Congelamento de Óvulos para a Maternidade

O olhar enviesado do algoritmo: quando a repetição define o “normal”
Uma das conclusões mais alarmantes do relatório é a forma como a IA treina jovens a aceitar a desigualdade como uma norma geracional. Esse “olhar enviesado” se manifesta na construção da identidade e da percepção do corpo:

  • A armadilha da estética: diante de inseguranças, a IA oferece conselhos de moda 48% mais às mulheres do que aos homens. Em modelos de código aberto como o LLaMA, as menções à aparência feminina são 40% superiores.
  • Corpos úteis vs. corpos únicos: enquanto associa os homens à “força e funcionalidade”, vincula o bem-estar feminino à “autenticidade” e a “sentir-se única”. De fato, recomenda aos homens ir à academia até duas vezes mais do que às mulheres para superar rompimentos emocionais.

Programando a família do século passado
Mesmo na esfera privada, a IA legitima papéis tradicionais. O afeto aparece como atributo materno em proporção três vezes superior ao paterno. O pai é deslocado para um papel de “ajudante” em 21% das respostas, em vez de ser reconhecido como corresponsável. Essa lógica desemboca na chamada “sobrecarga da heroína”, narrativa na qual a mulher não apenas cuida, mas, como em tantas outras esferas, deve fazê-lo com excelência moral permanente.

COMENTE ABAIXO:

Social

Desigualdade mantém 708 milhões de mulheres fora do mercado de trabalho

Published

on

Para especialistas, desigualdade estrutural também atravessa educação, inovação e espaços de decisão
No mercado de trabalho, cerca de 708 milhões de mulheres permanecem fora da atividade econômica em razão da sobrecarga com o cuidado não remunerado e da escassez de tempo disponível. O dado integra o Panorama de Gênero 2025, elaborado pela ONU Mulheres em parceria com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas. A especialista em oratória Fabiana Bertotti, observa que a sub-representação feminina não é casual. “Se as mulheres são metade da população do planeta, por que no dia primeiro de janeiro de 2025 elas ocupavam 27,2% das cadeiras nos parlamentos nacionais?”, questiona com base na ONU Mulheres. Para ela, os dados revelam um padrão estrutural que restringe presença e influência. “Isso não é coincidência, mas estrutura”, pontua.
Fabiana afirma que o custo de se posicionar ainda recai de forma desproporcional sobre as mulheres. Ao citar estudos sobre o chamado “backlash”, resume as diferenças. “A liderança exige firmeza, só que a firmeza feminina gera a penalização social”, explica. O efeito, segundo ela, molda comportamentos ao longo da vida profissional. “O silenciamento tem custo financeiro. Treinar a nossa voz é um ativo”, complementa.
O relatório aponta ainda que, mesmo quando conseguem ingressar no mercado, elas se concentram em ocupações de menor remuneração e com barreiras mais rígidas à progressão profissional. A desigualdade se aprofunda no setor de tecnologia, uma vez que as mulheres correspondem a apenas 29% da força de trabalho global e ocupam 14% dos postos de liderança. O estudo também alerta para os impactos da inteligência artificial, que ameaça 28% dos empregos femininos, uma proporção superior à registrada entre os homens, de 21%. Para Clara Cecchini, especialista em aprendizagem e inovação, graduada pela UNICAMP, com MBA pela FGV e formação complementar na Kaospilot e na Schumacher College, na Inglaterra, o avanço tecnológico não pode ser analisado isoladamente das assimetrias já existentes. “No Dia Internacional das Mulheres, a celebração de direitos e conquistas precisa dividir espaço com uma pergunta incômoda: que preço elas estão pagando pelo jeito que a Inteligência Artificial está sendo usada hoje”, afirma.
Clara cita o artigo “AI Doesn’t Reduce Work – It Intensifies It”, da Harvard Business Review, que sustenta que a tecnologia não diminui a carga, mas intensifica o ritmo e o volume de demandas. Em um cenário em que mulheres acumulam jornadas e enfrentam maior incidência de condições que afetam o cérebro, a expectativa de adaptação irrestrita aprofunda a pressão. “Justiça de gênero, na era da IA, significa impedir que a eficiência digital se sustente à custa de exaustão invisível”, diz.
Nas empresas
No ambiente corporativo, Vivian Rio Stella, pós-doutora em Linguística, idealizadora da VRS Academy e participante do TEDxJundiaí, avalia que o reconhecimento simbólico já não responde às tensões estruturais. “Durante muito tempo, o Dia da Mulher foi tratado nas empresas como uma pausa simbólica, com flores, frases inspiradoras, elogios genéricos”, observa. O problema, segundo ela, é a ideia de que o mundo do trabalho não foi pensado para elas.
Para Vivian, avançar exige deslocar a conversa do gesto para a cultura. “Talvez seja hora de nomear o óbvio que é evitado, que as mulheres se realizam no trabalho, não apesar de serem mulheres, não quando conseguem agir como homens, mas porque trazem outras formas de pensar”, diz. Ela defende experiências que promovam linguagem, escuta e reflexão. “Conversa, no ambiente de trabalho, é matéria-prima de cultura”, conclui.
Na escola 
Para Vitor Azambuja, CEO e um dos idealizadores do projeto De Criança Para Criança (DCPC), enfrentar o fato de que 122 milhões de meninas estão fora da escola, conforme a ONU, exige compreender os dados, e isso pode integrar narrativas e produções em que as próprias crianças são os autores, como propõe o DCPC. “São produções criadas por crianças e que precisam ser estimuladas para circular no cotidiano da família, da comunidade e da sociedade”, afirma sobre as animações desenvolvidas por alunos.
Ao tratar de histórias como a de Malala Yousafzai, o projeto busca transformar referência em reflexão. “A construção de uma sociedade mais justa começa com uma educação sólida desde a infância”, diz Vitor. Para ele, oferecer ferramentas narrativas às crianças amplia a consciência sobre direitos e igualdade.
Reportagem de Lucas Machado, da Betini Comunicação
Sobre Clara Cecchini
Graduada em Artes Cênicas pela UNICAMP, com MBA em Bens Culturais: Cultura, Economia e Gestão pela Fundação Getúlio Vargas e formação complementada por cursos como Working with Complexity, na Schumacher College (Inglaterra), e Master in Learning Arches Design, realizado no Brasil pela escola dinamarquesa Kaospilot. Experiência de 20 anos em iniciativas de inovação e design ligadas às dinâmicas do conhecimento e especializada em educação corporativa e aprendizagem organizacional. Com passagens por lugares tão diversos quanto Ministério da Cultura, Banco Santander, Istituto Europeo di Design e consultorias e palestras para organizações como Supremo Tribunal Federal, Banco Central do Brasil, Votorantim, Petrobrás, Porto, entre muitos outros.
Sobre Fabiana Bertotti 
Maior especialista de oratória no Brasil atualmente, referência na capacitação de líderes e profissionais que buscam comunicação clara, estratégica e de alto impacto. Reúne mais de 4 milhões de seguidores nas redes sociais, sendo só no Instagram 2.8 milhões. E alcance mensal superior a 25 milhões de pessoas. Jornalista formada pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP), escritora best-seller e especialista em Comunicação Estratégica, Oratória e Posicionamento. Direcionou sua carreira para a formação de comunicadores, com especialização em Cinema e Audiovisual pela PUC-PR e cursos de escrita no Brasil e na Inglaterra. São mais de 20 anos de experiência em palco, mais de 12 livros publicados e atuação em palestras e conferências no Brasil e no exterior.
Sobre Vitor Azambuja
Especialista em educação e criação, formado em publicidade, CEO e um dos criadores do programa De Criança Para Criança, sócio e diretor criativo da empresa.
Sobre Vivian Rio Stella 
Vivian Rio Stella é doutora em Linguística pela Unicamp, pós-doutora pela PUC-SP e idealizadora da VRS Academy. Colunista da revista Você RH e professora da Fundação Dom Cabral, Escola Aberje e de curso de comunicação na Audible/Casa do Saber, Vivian é reconhecida por sua abordagem humanista, crítica e contextual, que foca na comunicação para promover colaboração, respeito e diálogo nas organizações. Ao longo dessa jornada, já realizou palestras, workshops e consultorias para mais de 300 empresas de diferentes portes e setores.
COMENTE ABAIXO:
Leia Também:  5ª Feira Nacional da Uva e do Vinho de Brasília ganha um brilho a mais, e muito especial: vêm aí os lendários Paralamas do Sucesso.
Continuar lendo

MULHER NA POLÍTICA

MULHER NA SAÚDE

MULHER SOCIAL

MULHER NO ESPORTE

MULHER CELEBRIDADE

MAIS LIDAS DA SEMANA