Esporte
O que explica o sucesso dos primeiros colocados nos Jogos Olímpicos de Paris
Deutsche Welle
Investimento amplo
“Os que ganham muitas medalhas são países que têm investimento não só nos esportes olímpicos, mas em todos. Eles oferecem uma boa quantidade de atletas de alto nível que é fruto de um grande processo seletivo que começa com uma base muito forte”, analisa Katia Rubio, professora da faculdade de educação da USP (Universidade de São Paulo), especializada em estudos olímpicos.
É difícil competir com o tradicional e vasto sistema de esportes oferecido nos Estados Unidos, por exemplo. Em um país onde a cultura de patrocínios privados é muito difundida, também é complexo rastrear o quanto de dinheiro é investido no setor. Só em 2023, o Comitê Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos declarou ter recebido cerca de US$ 345 milhões de dólares (cerca de R$ 1,5 milhão, na cotação atual).
O Japão, principal algoz do Brasil na França, tem se saído bem para além das vitórias contra brasileiros. Segundo pesquisadores, o fenômeno é como um efeito residual dos investimentos feitos pela nação quando sediou os Jogos (Tóquio, em 2021).
O país asiático traçou um plano estratégico para destacar seus atletas na edição que sediou, em 2021, e injetou mais de 6 bilhões de dólares só em recursos públicos em meio à preparação para os Jogos. Como resultado, ganhou 27 ouros e terminou a competição em terceiro no quadro de medalhas, atrás de Estados Unidos e China.
Tendências históricas
Leandro Mazzei, professor de ciências do esporte da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), se debruça sobre o tema há alguns anos. Ele diz que há duas tendências correntes que explicam a conquista – ou não – de medalhas quando se trata de esporte internacional de alto rendimento: mais países concorrem desde a década de 1990 e há concorrentes com mais poder de conquistar medalhas.
Ainda assim, mesmo com maior número de competidores, alguns países têm muito sucesso. O que o conhecimento adquirido por meio de estudos estatísticos e pesquisa qualitativa aponta é que metade das medalhas vão para países de renda alta, população grande e sistema esportivo mais centralizado.
“Os outros 50% de medalhas são explicados por gestão, investimento em longo prazo, recursos financeiros, cultura esportiva, desenvolvimento de talentos, suporte para atleta e treinadores, instalações, competições existentes no país e suporte científico”, disse Mazzei.
Os itens citados pelo pesquisador fazem parte de um modelo conceitual conhecido como “Spliss”, abreviação para a teoria chamada de Sports Policy factors Leading to International Sporting Success, e que seriam os pilares que sustentam o sucesso no esporte de alto rendimento.
Os sucessos do Brasil
Em Paris, o primeiro ouro do Brasil veio com o judô. O esporte é um caso de sucesso brasileiro desde 1972, em Munique, quando rendeu a primeira medalha olímpica da modalidade.
A dificuldade de financiar esportes faz parte da história nacional. O futebol, naturalmente, é um caso à parte, enraizado na cultura e, algumas vezes, usado até politicamente.
A situação para os atletas de alto rendimento começou a mudar em 2001, com a chamada lei das loterias, o programa do governo federal Bolsa atleta, de 2004, além de programas específicos das Forças Armadas.
+Bolsa Atleta: qual o valor máximo, quantos recebem e como o programa funciona?
A lei das loterias instituiu que cerca de 1,7% das apostas sejam direcionadas ao COB (Comitê Olímpico do Brasil). A fonte segura de dinheiro abastece diversas confederações, como a CBG (Confederação Brasileira de Ginástica) que, em 2023, recebeu R$ 10,6 milhões de reais desse repasse.
A política ajudou a pavimentar o caminho da ginástica brasileira rumo à elite mundial. Em 2012, Arthur Zanetti, nas argolas, conquistou o primeiro ouro. Em 2024, as meninas levaram a primeira medalha por equipe na modalidade, vinte anos depois da estreia de um time feminino completo em Jogos Olímpicos.
Letícia de Queiroz Lima investigou durante o doutorado na Unicamp quais são os fundamentos desse crescente sucesso da ginástica brasileira. A pesquisa apontou respostas como instalações esportivas, desenvolvimento e suporte para treinadores, suporte financeiro, políticas públicas específicas para ginástica feminina, participação do esporte de base, competições, características dos treinadores e das ginastas e treinamento da arbitragem.
“A ginástica é um esporte em que as crianças começam muito cedo e a família, os responsáveis, são muito importantes para isso”, afirmou Lima. “Mas um dos pontos fracos no país é a falta de apoio à participação no esporte de base”.
Apesar de pelo menos uma fonte de recursos ter sido assegurada para esportes olímpicos, a distribuição do dinheiro num país de dimensões continentais ainda é desigual, avaliam especialistas ouvidos pela DW. Outros problemas seriam a falta de apoio na base e a dificuldade de acesso.
A ginasta Rebeca Andrade, brasileira com mais medalhas olímpicas, por exemplo, foi revelada por um projeto social com apoio da prefeitura da cidade de Guarulhos, em São Paulo. Dentre as mais de cinco mil cidades brasileiras, são poucas as que oferecem práticas contínuas de esporte a crianças e jovens.
Acesso difícil
Fernando Scavasin fez parte do time brasileiro da esgrima por vinte anos e diz ter conhecido este esporte por acaso. Aos 12 anos, ele foi atrás de aulas gratuitas de futebol e basquete no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, mas se interessou por outra coisa depois de ler uma placa no local: “Venha fazer esgrima”.
“Nem sabia o que era, mas fui ver. Acabei me tornando um atleta por ter tido acesso a um esporte que nunca tinha ouvido falar”, conta Scavasin, que atualmente oferece aulas de esgrima nas escolas.
Ele relata dificuldades em chegar a um alto rendimento e afirma que o programa Bolsa Atleta, que recebeu de 2004 a 2020, foi como um “grito de independência” na sua trajetória: com o apoio financeiro era possível escolher melhor os materiais para treinar e participar de competições.
A medalha olímpica na modalidade ainda não foi alcançada pelo Brasil. “Vejo uma desorganização estrutural grande, há também a questão cultural. Ainda é muito dificil”, justifica Scavasin.
Atleta, figura exposta
Para Katia Rubio, os fatores que levam à medalha são fruto de um longo processo, e não podem ser explicados de forma tão objetiva. Com uma extensa pesquisa sobre Jogos Olímpicos, ela vê a dificuldade que os atletas brasileiros têm para manter o alto nível e atender às expectativas do público.
A cada promessa de medalha não cumprida, a sensação de derrota é estampada pelas inúmeras câmeras que transmitem as competições e os torcedores em casa aumentam o coro da frustração.
“O que eu lamento demais é que quem responde por tudo isso no final é só o atleta. Porque é ele quem está ali, diante das câmeras, diante do público. E ele serve de anteparo para tudo aquilo que não foi feito pelos dirigentes, patrocinadores, gestores. E todo esse meio envolvido fica protegido. A única figura exposta é o atleta”, concluiu Rubio.
Esporte
“Elas em campo” é tema do Caminhos da Reportagem desta segunda-feira
Em menos de um ano, em junho de 2027, oito cidades brasileiras sediarão jogos da primeira edição de uma Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul, recebendo 32 seleções de todo o mundo. A grandiosidade do evento reforça a importância do debate sobre o futebol feminino e demonstra que, ainda que estejamos evoluindo na modalidade, ainda há desafios a serem superados.
Se a geração das primeiras jogadoras a representar o país na seleção não tinha salários e recebia apenas uma ajuda de custo, inclusive nos seus clubes, hoje já existem várias competições nacionais e internacionais e mesmo de categorias de base, com um cenário consolidado de jogos. Se antes era preciso conciliar a paixão pelos campos com outros trabalhos, hoje já existe toda uma cadeia de mulheres atuando profissionalmente em cada etapa da modalidade, dentro e fora das quatro linhas.
Apesar disso, ainda há machismo e preconceito. Competições de várzea femininas ou espaços de formação e treinamento exclusivos para meninas são raros e surgem de iniciativas pontuais.
Na semana em que é coroada mais uma equipe como vencedora do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, com grandes torcidas enchendo estádios e apoiando suas atletas, é preciso lembrar que se uma mulher quisesse jogar bola entre os anos 1940 e meados de1980 no Brasil, ela era proibida por lei de praticar esse esporte, sob a justificativa de que teria a saúde física prejudicada.
Hoje, no entanto, apesar das resistências que surgem, inclusive dentro das próprias famílias e de toda a sociedade, já é possível ver meninas e jovens sonhando com uma carreira no esporte, ou mesmo desejando simplesmente jogar bola, seja por amor ou diversão, em diferentes fases da vida.
Também já é possível reconhecer e reverenciar toda uma geração de pioneiras que pavimentaram esse caminho e são referências da potência que ainda podemos nos tornar, algumas inclusive trabalhando pela modalidade mesmo após oficialmente ‘pendurarem as chuteiras’.
Márcia Honório, uma dessas precursoras na seleção brasileira e que fez parte da primeira equipe a representar o Brasil em uma Copa do Mundo, fala sobre a emoção desse momento.
“Quando você pega um telegrama daquele e se vê convocada, e quando está fora do seu país e ouve o Hino Nacional, é emocionante até hoje. A gente gostava e tinha garra, uma vontade de querer ganhar para chegar ao país e falar assim: ‘ó, agora vocês precisam ajudar o futebol feminino’”.
A equipe do Caminhos da Reportagem conversou com especialistas, atletas e ex-atletas, gestoras, jogadoras de várzea, empreendedoras, meninas e mulheres que vivem e, acima de tudo, amam o futebol. Elas contam como está a modalidade hoje, os desafios já superados e as expectativas para o que as próximas gerações encontrarão.
A ex-jogadora Formiga, recordista absoluta em tempo de atuação e em número de vezes representando o Brasil em copas do mundo, reconhece a importância desse pertencimento dentro da categoria:
“Eu passei de Miraíldes, a Mira, da família e dos amigos, para Formiga. E só aí vim entender que não só a Miraíldes jogava futebol, existiam outras mulheres que também passaram o mesmo ou pior, que eu não era a única mulher estranha no mundo. Até então eu me achava um ser humano estranho, por ser a única menina ali que jogava realmente futebol no meio dos meninos”.
A jornalista Milly Lacombe lembra a importância dessa participação coletiva nos processos: “Eu acho que a principal mudança é a ideia de que juntas, conseguimos coisas, sozinha ninguém consegue nada. Então, a ideia de que a luta pela emancipação feminina não se separa da luta pelo futebol feminino. Eu diria que essa consciência de que a gente é classe, é um grupo, de que vamos juntas. Eu acho isso muito bonito no futebol feminino, que tem uma história de amor que o masculino não tem”, afirma.
O momento é de otimismo e de maior espaço para a modalidade, inclusive por causa da copa no Brasil, e as entrevistadas imaginam um futuro com mais desenvolvimento para o futebol feminino. A treinadora de times da várzea Lu Leal diz o que espera para as novas gerações: “Meu maior sonho é ver as atletas que estão batalhando alcançar o objetivo chegar, ganhar e ter oportunidades. É o que elas merecem.”
O Caminhos da Reportagem “Elas em campo: futebol, paixão e resiliência” será exibido hoje (5), às 23h, na TV Brasil. No próximo mês, o tema será retomado em outro programa que tratará das condições e do cenário do futebol feminino como profissão e possibilidade de carreira para jovens mulheres.
Fonte: Agencia Brasil
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