Mulheres incriveis
Dulcina de Moraes: uma vida em cena, um legado a ser preservado
Dulcina de MoraesFoto: Fotos: Divulgação/Acervo Dulcina de Moraes
Após 27 anos da morte de Dulcina de Moraes, o legado de uma das maiores damas do teatro permanece vivo por meio de acervo guardado no Teatro Dulcina

Para além das artes cênicas, Dulcina era referência na moda e ditava tendências com os figurinos utilizados em suas peças. Nos guarda-roupas do teatro, encontram-se peças de algumas das marcas de luxo mais famosas do mundo, como Dior, feitas especialmente para a dama do teatro. Os vestuários são registrados com nome de Dulcina, datados da década de 1950, período em que o próprio estilista Christian Dior fazia peças exclusivas.
A professora de teatro Gabriela Pedron, formada pela Faculdade Dulcina de Moraes, chegou a fazer uma visita ao acervo durante a disciplina de Indumentário e Caracterização, em 2009, mas garante que só no ano passado, com o início do processo de inventariação, entendeu a imensidão da herança deixada pela atriz carioca. “Acho que ninguém tinha noção da quantidade de preciosidades que tinham nesse acervo”, conta a professora de teatro. “Não são só figurinos, textos, fotos. É a história do teatro. Você vê uma roupa e você tem toda uma referência histórica de como era naquele período”, exemplifica.
Gabriela ressalta que o acervo é de enorme importância para a memória de Dulcina. “A visibilidade desse material é uma herança para o teatro brasileiro, é a gente entender que ali está a história, importância e legado que a Dulcina deixou. Nós, atores da atualidade, temos que ter noção da importância que essa mulher teve, e como o teatro hoje anda a partir de pessoas que lutaram pelo nosso direito”, declara. “Acho que não é só sobre o legado, é sobre a obrigação de dar visibilidade para essa mulher e o que ela nos deixou”, complementa.
Fundador do Teatro Caleidoscópio e aluno de Dulcina, André Amahro ressalta o valor do acervo da atriz. “Dulcina de Moraes foi considerada a maior personalidade das artes cênicas do século 20. É uma mulher que construiu grande parte do teatro desenvolvido no Brasil, então as peças que ela fez e esse material físico, esse patrimônio simbólico e objetivo que ela nos deixou é muito importante para a história do país. O Brasil também se conta por meio das artes, do teatro. Esses objetos, documentos, figurinos têm muita história para contar sobre o teatro brasileiro”, opina.
Segundo Gilberto Rios, atual presidente da Fundação Brasileira de Teatro (FBT), responsável pela gestão do teatro e da faculdade, o lançamento de um museu virtual deve ocorrer até meados de agosto, após a finalização do inventário. “No ano passado, chegamos a catalogar 80% do acervo, deixá-lo bem armazenado no ar-condicionado. Nós iremos dar continuidade a esse processo este ano, haja vista aprovamos uma lei Paulo Gustavo para dar continuidade. O projeto será coordenado pelo museólogo Márcio Vianna, aposentado do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e ele dará uma total cobertura para nós nesse sentido”, detalha.
Em fevereiro, a FBT chegou a comunicar nas redes sociais que o acervo da Fundação e de Dulcina de Moraes estava devidamente inventariado e 100% armazenado de forma adequada e segura. No entanto, ao Correio, Gilberto afirmou que a catalogação está parada desde outubro. “Já está bem adiantado. Nós temos um mapeamento feito, um trabalho muito interessante pela equipe anterior que fez uma radiografia muito interessante daquele acervo. Acredito que em meados de agosto o museu virtual esteja pronto”, adianta.
Em setembro de 2023, o prédio que abriga o teatro e a faculdade, projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, correu risco de ser colocado em leilão, devido a uma dívida milionária. “O leilão foi postergado. Ainda existe uma dívida somatória beirando os R$ 30 milhões, que nós herdamos dos administradores anteriores do teatro. Agora, estamos no compasso da negociação dessas dívidas”, garante o presidente da FBT.
De acordo com Gilberto, a instituição, atualmente, está em processo de negociação com um mecenas. “Os próximos passos são bem promissores. Estamos negociando com um mecenas de São Paulo e, nesta semana, avançamos muito. Acredito que, nos próximos 15, 20 dias, a sociedade brasileira deve ter alguma novidade em relação a esse mecenas, que é uma grande empresa de São Paulo”, promete. “Em 30, estourando 45 dias, devemos ter uma solução definitiva para a FBT”, estima o responsável.
Em nota, o secretário de Cultura do Distrito Federal, Cláudio Abrantes, assegurou que a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec) vem participando ativamente dos desdobramentos em relação ao acervo do Teatro Dulcina. “Tanto o Teatro Dulcina de Moraes quanto os acervos Fotográfico, Textual e Cênico da atriz são tombados através do Decreto nº 28.518 de 07/12/2007. No seu parágrafo único, o decreto informa que qualquer intervenção precisa ser aprovada pela Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal/Diretoria de Patrimônio Histórico e Artístico — DEPHA (hoje chamada de Subsecretaria do Patrimônio Cultural). Portanto, acompanhamos com atenção o desenrolar dos processos judiciais em que a Fundação Brasileira de Teatro e o próprio Teatro Dulcina são partes interessadas”, declarou.
“A Secec participou ativamente do mapeamento dos acervos do Teatro Dulcina. Ele aconteceu através de uma contratação da Fundação Brasileira de Teatro, que tem a responsabilidade legal pela preservação dos bens que estão em sua posse. Entretanto, a Secretaria de Cultura orientou, auxiliou e aprovou o produto final do mapeamento, que foi realizado por equipe qualificada e profissional. Seguiremos atentos aos desdobramentos dos processos legais e vigilantes acerca da preservação do prédio e dos acervos, herança da grande dama do teatro brasileiro”, finalizou o secretário.
Quem foi Dulcina de Moraes?
Nascida em 1908, em Valença, Rio de Janeiro, Dulcina de Moraes se apaixonou pelo teatro ainda na adolescência, ao ingressar na Companhia Brasileira de Comédia de Viriato Correa. Após anos investindo na carreira de atriz, no final da década de 1920, Dulcina criou a Companhia Dulcina-Odilon, ao lado do marido Odilon Azevedo, ator e empresário. Posteriormente, o casal inaugurou a Associação Brasileira de Teatro, semente do que hoje é a FBT e responsável por dar início à história da carioca como diretora e professora.
Com a morte de Odilon, em 1966, Dulcina foi incentivada por personalidades como Darcy Ribeiro e Sarah Kubitschek a transferir a fundação para a recém-inaugurada capital federal. A atriz mudou-se para Brasília em 1972 e se dedicou à construção do edifício que abriga até hoje a Fundação Brasileira de Teatro, a Faculdade de Artes Dulcina de Morais, a Galeria de Arte e o Teatro Dulcina. O espaço, por muitos anos, movimentou a cena artística local e foi palco de espetáculos nacionais e internacionais, além de mostras, festivais, filmagens, exposições de artes visuais e performances de todos os tipos.
A importância de Dulcina é tamanha que, em dezembro de 2023, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), sancionou a lei do Congresso Nacional que inscreve o nome de Dulcina de Moraes no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, memorial cívico que homenageia heróis e heroínas nacionais que contribuíram para o engrandecimento da história brasileira.
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Mulheres incriveis
Governadora lança rede de amparo a mães atípicas e plano para frear violência
Governadora assinou decretos que consolidam políticas públicas permanentes voltadas para a proteção feminina e o amparo dessas famílias
Ana Isabel Mansur, da Agência Brasília | Edição: Vinicius Nader
Um dia histórico para as mulheres do Distrito Federal. A governadora Celina Leão assinou nesta quarta-feira (1º) dois decretos que ampliam e consolidam as políticas públicas de cuidado e proteção ao público feminino, com a instituição oficial da Rede de Apoio às Mães Atípicas, para tornar permanente o amparo estatal para cuidadoras de pessoas com deficiência e doenças raras, e a criação do Plano Distrital de Combate à Violência e de Proteção à Mulher (PDCV-Mulher), planejamento estratégico de dez anos para a área de segurança pública.
Ao assinar os textos, a chefe do Executivo destacou a construção conjunta das políticas, inclusive com participação da sociedade. “Esse decreto vai mudar a percepção do Estado para as nossas famílias atípicas porque ele não veio de cima para baixo. Esse decreto foi construído por vocês e está pronto para ser retificado, melhorado, ampliado e debatido, porque ninguém faz tudo acertando, mas tudo tem um começo. E esse começo é muito firme e muito presente”, afirmou a governadora.
“A outra política também é de proteção e cria um comitê de combate à violência contra as mulheres. É um comitê permanente, que vai trazer dados estruturados e fazer a medição dos índices. Em um ambiente onde você tem mulheres respeitadas, crianças respeitadas, famílias atípicas respeitadas, uma sociedade respeitada, você tem condição de falar de cidadania. Não adianta falar de cidadania sem ter direitos e garantias que são fundamentais de verdade”, reforçou.
Para a secretária interina da Mulher, Jackeline Aguiar, os textos assinados revelam pontos prioritários que a sociedade escolhe proteger. “O que se firma vai muito além de assinatura de decreto. Afirma-se, sobretudo, uma compreensão do Estado de que governar é construir caminhos para que ninguém caminhe sozinho. Nenhuma política pública nasce completa. Ela amadurece quando escuta a sociedade, quando dialoga com a realidade e quando transforma necessidades em ações concretas. Os dois decretos assinados hoje dialogam entre si porque nascem de um mesmo princípio: a convicção de que as políticas são mais eficazes quando aproximam pessoas, integram esforços e constroem soluções permanentes”, afirmou a gestora.
Acolhimento e autonomia para mães atípicas
Coordenada pela Secretaria da Mulher, a nova rede transforma em política pública permanente o acolhimento, a proteção e a articulação de serviços voltados às mulheres que assumem a responsabilidade contínua pelo cuidado de filhos ou dependentes com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras. A iniciativa nasce do reconhecimento de que, em grande parte das famílias, são as mulheres que assumem a maior parte das responsabilidades relacionadas ao cuidado contínuo, realidade que pode impactar a saúde física e emocional, a autonomia financeira, a permanência no mercado de trabalho e a qualidade de vida.
A política surge do acúmulo de experiências bem-sucedidas do projeto Mães Mais que Especiais, que prestou 6.031 atendimentos e contemplou famílias de seis regiões administrativas (Ceilândia, Santa Maria, Planaltina, Samambaia, São Sebastião e Sol Nascente/Pôr do Sol). A partir desta assinatura, as ações governamentais ganham atuação conjunta e deixam de ocorrer de maneira isolada. A experiência acumulada evidenciou a demanda por atendimento especializado e contribuiu para a estruturação da rede como política pública permanente. O objetivo é reunir, em um único espaço, diferentes serviços públicos para facilitar o acesso das famílias ao atendimento especializado.
A iniciativa também prevê a implantação da Casa da Mãe Atípica. O local servirá como um espaço de referência para o atendimento integrado, com apoio psicossocial, acolhimento especializado, orientação jurídica, qualificação profissional e incentivo ao empreendedorismo, sempre com o foco de fortalecer a autonomia financeira e emocional dessas mulheres.
O objetivo é reunir, em um único espaço, diferentes serviços públicos, para facilitar o acesso das famílias ao atendimento especializado
“Cuidar das mães é fundamental”, avaliou a chefe do Executivo. “Porque tem dias que o esgotamento físico nos deixa sem condições. Nós somos seres humanos, temos limites, nos cansamos. E o Parque da Cidade é o lugar mais lindo, já está com quase 70% do espaço reformado. Vai ter aula de ioga, vai ter psicólogo e psiquiatra, vai ter cuidado, vai ter massagem. Elas vão poder se encontrar, chorar juntas, falar. É um lugar de acolhimento. E outra será no Recanto das Emas. São os primeiros núcleos de apoio às mães”, acrescentou.
Emocionada, Nazaré Silva, 52 anos, que atua em defesa das mães atípicas no DF, afirmou que a iniciativa une cuidado e acolhimento. “Hoje, a gente vê que muitas mães têm tido a saúde mental muito afetada porque não têm um atendimento adequado para os filhos, não têm saúde garantida, não têm uma educação realmente inclusiva”, avaliou, ao lado do filho Samuel José, de 12 anos. “Como mãe de pessoa com deficiência, digo que a gente sente realmente que vai caminhar com direcionamento fortalecido, acolhido mesmo, que é o que a gente sempre sonhou. Vai ser algo incrível porque as mães realmente vão se sentir representadas e acolhidas, na certeza de que a sociedade está se tornando um lugar melhor para todas as famílias de pessoas com deficiência”, destacou Nazaré, que é idealizadora do projeto Cromossomo do Amor, em Ceilândia, e presidente do Centro de Ensino e Reabilitação, na Asa Sul.
Proteção às mulheres
O PDCV-Mulher estabelece uma política de Estado estruturada, com metas estabelecidas para o período de 2025 a 2034, focada em proteger vidas, prevenir violências e fortalecer a rede de atendimento. Construída sob a coordenação das secretarias de Segurança Pública e da Mulher, a iniciativa une diversas áreas do governo local, como saúde, educação, assistência social e justiça.
Um dos grandes diferenciais do plano é a governança contínua: pela primeira vez, o DF passa a contar com um instrumento único de planejamento que define metas institucionais, indicadores de acompanhamento e ciclos periódicos de avaliação. Trata-se de uma atuação baseada em planejamento, integração institucional, prevenção, proteção e resultados.
O texto normativo também institui o Comitê Gestor do PDCV-Mulher, que terá capacidade decisória para garantir celeridade na execução das ações. Além disso, o documento incorpora as diretrizes da Lei Federal nº 14.899/2024, o que assegura melhores condições institucionais para o DF acessar recursos federais destinados à proteção feminina. A norma federal trata da elaboração e da implementação de plano de metas para o enfrentamento integrado da violência doméstica e familiar contra a mulher.
Para a Secretária Executiva Institucional e de Políticas de Segurança Pública, Regilene Siqueira Rozal, o documento representa mais do que um instrumento de planejamento. “Ele simboliza a consolidação de uma política pública estruturada, integrada e permanente, voltada para o enfrentamento da violência contra a mulher e para o fortalecimento da rede de proteção. Com diretrizes, metas, indicadores e mecanismos de monitoramento, o plano alinha o Distrito Federal às diretrizes nacionais para o enfrentamento da violência contra a mulher e fortalece a capacidade do Estado de prevenir a violência, aprimorar o atendimento às vítimas e garantir respostas cada vez mais qualificadas e efetivas. O plano inaugura uma nova etapa das políticas públicas do Distrito Federal e reafirma o protagonismo desta unidade da federação na construção de uma política pública de Estado integrada, planejada e orientada por evidências para o enfrentamento da violência de gênero”, pontuou.
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