Cultura
Ceilândia, Taguatinga e Riacho Fundo abrem vagas gratuitas em oficinas de teatro
Três projetos formam novos artistas nas regiões administrativas do DF, sem exigir experiência prévia, e terminam em espetáculos apresentados à própria comunidade; inscrições abertas ao longo de julho
Enquanto se discute o acesso à cultura para além do Plano Piloto, três oficinas gratuitas de teatro colocam as regiões administrativas do Distrito Federal no centro da cena. Em Ceilândia, Taguatinga e no Riacho Fundo, moradores a partir de 14 anos, com ou sem experiência de palco, podem se inscrever para formações que unem prática e teoria e terminam em espetáculos abertos ao público. Uma reúne teatro e vídeo em tempo real; outra transforma a plateia em atores para debater as opressões do cotidiano; a terceira usa o teatro musical e as estéticas afro-brasileiras para falar sobre racismo. As três contam com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF, e têm um mesmo propósito: revelar novos artistas onde eles moram.
Teatro do Oprimido: a plateia entra em cena, em Ceilândia
A oficina parte da metodologia criada por Augusto Boal, que transforma “espectadores” em “espect-atores”: em vez de apenas assistir, o público entra em cena para identificar e discutir as opressões do dia a dia. Com direção de Nei Cirqueira, morador de Ceilândia há quase 30 anos, a formação oferece 25 vagas para jovens e adultos a partir de 15 anos, com encontros às terças e sextas, no Sesc Ceilândia. A dramaturgia do espetáculo final é construída de forma colaborativa, a partir das vivências dos próprios participantes, e será apresentada em novembro, com sessões dedicadas a estudantes da rede pública, acompanhadas de material didático e debates.
(entre) Real x Ficcional: teatro e vídeo lado a lado, no Riacho Fundo
No Riacho Fundo, câmera e projetor sobem ao palco junto com os atores. A oficina (entre) Real x Ficcional transmite, em tempo real, a imagem dos alunos em cena, um exercício que coloca teatro e vídeo lado a lado e investiga os limites entre realidade e ficção. Dirigida por Rodrigo Lelis e Cleber Lopes, parceiros desde a graduação na Faculdade Dulcina de Moraes, a formação oferece 20 vagas para maiores de 15 anos e apoia-se nos estudos de Constantin Stanislavski. Ao fim de cerca de quatro meses, o grupo monta um espetáculo com dez apresentações, oito delas voltadas a estudantes de escolas públicas.
Ópera Suburbana: teatro musical e educação antirracista, em Taguatinga
Em Taguatinga, o teatro musical vira ferramenta de educação antirracista. A Oficina Ópera Suburbana ensina canto, dança, interpretação e expressão corporal e vocal, usando estéticas afro-brasileiras para discutir o racismo estrutural e valorizar as expressões artísticas de pessoas pretas. Dirigida por Ricardo César, com 35 anos de carreira e mestrado em teatro negro, a oficina tem 20 vagas para jovens a partir de 14 anos, preferencialmente pretos e moradores da região. A formação se estende por cinco meses e termina no espetáculo “Ópera Suburbana”, com cinco apresentações, quatro delas exclusivas para estudantes da rede pública.
Serviço
Teatro do Oprimido — Oficina de Montagem (Ceilândia)
Inscrições: de 22 a 30 de julho de 2026 (até as 12h do dia 30)
Vagas: 25, gratuitas
Público: jovens e adultos a partir de 15 anos, preferencialmente moradores de Ceilândia
Início das aulas: 4 de agosto de 2026
Encontros: terças e sextas, das 14h às 17h (4 meses)
Local: Sesc Ceilândia (QNN 27, Área Especial S/N, Ceilândia Norte)
Inscrições pelo link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSf3n_73S1M0kB-DkCns6jNHgbPpIC0Oydkb79gr_2ZwZB4kLg/viewform
(entre) Real x Ficcional — Oficina de Teatro/Montagem (Riacho Fundo I)
Inscrições: de 21 a 31 de julho de 2026 (até as 13h)
Vagas: 20, gratuitas
Público: jovens e adultos a partir de 15 anos, preferência para moradores do Riacho Fundo I
Início: 3 de agosto de 2026
Encontros: segundas e quartas, das 19h às 22h (cerca de 4 meses)
Local: Administração Regional do Riacho Fundo I (Quadra AC 3, lote 6)
Inscrições pelo link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSd_J_mvGp-Ip1bEuSAuLShZh7gUHsspTtR2Mv15YsnV0Ah_UQ/viewform
Oficina Ópera Suburbana — Teatro Musical (Taguatinga)
Inscrições: de 14 a 28 de julho de 2026
Vagas: 20, gratuitas
Público: jovens a partir de 14 anos, preferencialmente pretos e moradores de Taguatinga
Início das aulas: 30 de julho de 2026
Encontros: quintas, das 14h às 17h, e sábados, das 9h às 12h (5 meses)
Local: Centro Cultural Recita (Setor Hoteleiro CSA 1, Taguatinga Centro)
Informações: @operasuburbana (Instagram)
Inscrições pelo link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdVsfoB7hdUobC6jWLPKrqE00vmR5opzlWnDWpJSrCGOPE2LQ/viewform
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Cultura
Ponto de Cultura Vovó Maria Conga fortalece formação cultural em Planaltina
Benzimentos, capoeira para a primeira infância, dança charme e comunicação digital integram ações gratuitas que aproximam gerações, preservam tradições e criam possibilidades de autonomia no Vale do Amanhecer
Há conhecimentos que sobrevivem porque passam de geração em geração. E há novas ferramentas que podem abrir caminhos para o presente e o futuro. No Ponto de Cultura Terreiro da Vovó Maria Conga – Santuário de Maria, no Vale do Amanhecer, em Planaltina (DF), essas duas dimensões se encontraram em um projeto que reuniu benzimentos e plantas medicinais, capoeira para crianças, dança charme e formação em social media, fotografia e produção de vídeos pelo celular.
Realizadas por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), as ações fortaleceram um trabalho que o Ponto de Cultura já desenvolve no território, voltado à preservação de conhecimentos tradicionais, formação cultural, convivência comunitária e criação de oportunidades de autonomia e geração de renda. O projeto destinou 82 vagas a quatro frentes de formação: 20 para benzimentos, 20 para comunicação digital, 30 para dança charme e 12 para crianças de 2 a 7 anos, na capoeira.
Segundo Mestra Mãe Maria do Cerrado, que está à frente do espaço e também atua como documentarista de patrimônio material e imaterial, registrando histórias ligadas à construção de Brasília, um dos efeitos mais perceptíveis foi a aproximação da comunidade. Pessoas que já conheciam o trabalho passaram a participar mais, enquanto novos públicos chegaram e encontraram no local um espaço de convivência, aprendizado e valorização cultural.
“A cultura é, realmente, viva, quando é compartilhada, praticada e reconhecida pelas pessoas”, afirma. Para ela, o projeto também ampliou o reconhecimento do Ponto de Cultura como um espaço coletivo, onde a cultura se manifesta não apenas em apresentações, mas na oralidade, na música, na dança, na culinária, nos saberes do Cerrado e nas tradições de terreiro.
Saberes Sagrados
Na oficina Sagradas Mulheres Bentas, conduzida pelas mestras benzedeiras e raizeiras Josefa Francisco Gomes Ataides e Mãe Maria do Cerrado, a oralidade foi o principal meio de transmissão de conhecimentos sobre benzimentos, plantas medicinais e práticas herdadas entre gerações. Um dos desdobramentos previstos é a incorporação de novos benzedores e benzedeiras à Roda de Benzimentos do Cerrado, iniciativa que o Ponto de Cultura já realiza de forma itinerante em diferentes espaços do Distrito Federal.
A transmissão da cultura afro-brasileira também chegou à primeira infância. Com o Mestre Ferrugem, crianças de 2 a 7 anos tiveram contato com movimentos, musicalidade, instrumentos, cantigas e a roda de capoeira por meio de atividades lúdicas.
Já a oficina de dança charme, conduzida por Luciana Mota Ferreira, trabalhou musicalidade, expressão corporal e construção coletiva de coreografias, além de estimular a formação de grupos que possam continuar vinculados ao Ponto de Cultura.
No outro extremo dessa ponte entre tradição e contemporaneidade, Vanessa Neres conduziu a formação em social media, fotografia e filmagem pelo celular. Os participantes aprenderam produção de conteúdo, planejamento de redes sociais, fotografia e vídeo, com perspectiva de utilização desses conhecimentos no mercado de trabalho, no empreendedorismo e na construção de portfólios próprios.
Durante o projeto, oficinas, encontros e momentos de troca ampliaram a rede de participação e pertencimento em torno da instituição. “Para nós, o resultado mais bonito é ver o Ponto de Cultura pulsando. É ver as pessoas chegando, participando, trazendo seus saberes, seus talentos e suas histórias”, manifesta Maria do Cerrado.
Público
Aberto a todos, a iniciativa se esforçou para alcançar, sobretudo, mulheres em situação de vulnerabilidade social, pessoas trans, negras e com deficiência, estudantes da rede pública, jovens desempregados, pessoas com 60 anos ou mais, pessoas em situação de rua, imigrantes, integrantes da comunidade LGBTQIA+, povos de terreiro e povo cigano. A acessibilidade também é um dos princípios e esteve incorporada desde a realização das oficinas até a comunicação do projeto, com espaços acessíveis, materiais em braile e recursos de Libras. Pessoas com deficiência também integram a equipe em funções de coordenação e execução.
Do Ponto de Cultura para o território
O projeto também levou o que foi produzido nas formações para momentos de compartilhamento com a comunidade. A programação incluiu a Roda de Benzimentos do Cerrado, com mestres e mestras da região; a Batalha Charmosa, dedicada às performances e coreografias de dança charme; e os Festejos Sagrados da Vovó Maria Conga, reunindo diferentes expressões trabalhadas durante o projeto.
As ações dialogam com uma região onde, segundo o diagnóstico apresentado pelo próprio Ponto de Cultura, a população convive com vulnerabilidades sociais e carência de espaços culturais e formativos. Nesse contexto, a instituição busca aproximar cultura, formação e participação comunitária.
De acordo com Maria do Cerrado, a experiência também revelou a demanda existente por espaços de formação e convivência e fortaleceu a capacidade de mobilização da instituição. Como elabora, o recurso público ganha significado justamente quando seus efeitos chegam à vida cotidiana: “O investimento na cultura chegou até o território e se transformou em encontro, participação, aprendizado, autoestima, memória e fortalecimento comunitário.”
O encerramento do projeto, portanto, não representa o fim desse movimento. O próprio plano de trabalho prevê estratégias para a continuidade das oficinas, a ampliação da Roda de Benzimentos e a manutenção dos vínculos e parcerias construídos durante as atividades.
Sobre o Ponto de Cultura Terreiro da Vovó Maria Conga – Santuário de Maria
Localizado no Vale do Amanhecer, em Planaltina (DF), e certificado como Ponto de Cultura desde 2025, o espaço, fundado em 1970, desenvolve ações ligadas à preservação e transmissão de saberes ancestrais, formação cultural, inclusão e fortalecimento comunitário. Sua trajetória reúne iniciativas de medicina tradicional, benzimentos, alimentação de terreiro, memória, audiovisual, sustentabilidade e formação de diferentes públicos. Entre as ações já realizadas estão projetos apoiados pelo FAC e pela Lei Paulo Gustavo, além de iniciativas desenvolvidas pela própria entidade e por meio de parcerias.
Serviço:
Para conhecer e participar das atividades gratuitas:
Ponto de Cultura Terreiro da Vovó Maria Conga – Santuário de Maria
Endereço: Sítio Agrovale, Fazenda Santa Fé, Gleba 02, Área Rural de Planaltina
Site: pontodeculturavovoconga.com.br
Facebook: Terreiro da Vovó Maria Conga – Casa de Benzimento
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